sexta-feira, 8 de março de 2019

Ela sabe que já esteve mais acompanhada, que tem vontade de resgatar pessoas que ficaram no passado. Mas  aceita que a perda lhe trouxe um auto-conhecimento que jamais alcançaria se estivesse sempre ancorada.
Ela sabe que grande parte do que sonha dificilmente virá a acontecer, no entanto, continua a sorrir com a possibilidade. Porque ela sabe que tudo é possível desde que acredite, desde que viva de forma imaginativa. Criando as imagens, as emoções acabam por surgir e com as emoções um rosto, uma pessoa. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

(A propósito da aceitação...)


Passamos a gostar do que não gostávamos, 
A conviver com quem não tolerávamos. 
A não endeusar quem adoramos, 
A não nos arrebatar pelas imagens, 
Mas a cativar-nos pelas histórias. 
O defeito vira enfeite, 
O simples vira qualidade, 
Ficamos mais orgânicos, mais expostos,
Mas curiosamente menos vulneráveis. 



quinta-feira, 8 de junho de 2017

às vezes...

(Às vezes, sem saber porquê, duvidamos do nosso percurso porque é tão diferente dos demais) 


Numa altura em que comparamos percursos de vida sobretudo pelas coisas que obtemos é difícil fazer-se evidenciar quando este não se centra em nada quantificável, é como se nos faltassem provas do trabalho alcançado. Ainda assim, e não querendo justificar-me porque não o devo, estou grata por esta caminhada em que parti para a viagem mais desafiante em que me poderia ter inscrito, e no meio de tanta incerteza, ter aglutinado sempre o mais importante.  
A minha história de vida não se fez e não se faz pelas conquistas que outros tenham traçado para mim. A minha história faz-se de todas as experiências que vivi, senti e das quais descobri uma linha para um poema ou um ditame. Assim, considerando que cada trilho tem a sua envergadura, uma mais delicada outra mais grotesca o mais importante é a aprendizagem pessoal que dela extraímos. E aí quanto maiores os riscos, maiores os desafios. Sendo que só conheceremos os nossos limites, se nos expusermos, se comunicarmos, se formos à procura do diferente, se apoiarmos não aquilo que nos dá visibilidade mas que nos dá substancialidade. A jornada não se quantifica pelos números de fins de etapas que alcançamos mas aquilo que durante a jornada nos tornamos. Teremos, então, descoberto não o sentido mas a essência da vida. 

quinta-feira, 9 de março de 2017

A mudança como forma de caminho



Sei que os caminhos que percorro são muitas vezes os mais solitários, os mais circunspectos e os mais sinuosos. Sei que existem outros caminhos, o das memórias felizes, o do aconchego de familiares e amigos, o da celebração das dádivas e a gratidão constante da existência. Não defendo um em supremacia do outro, vou alternando, como se altercasse rumos da história com o intuito de enriquecê-la, para que o fim seja mais surpreendente, mais autêntico. Não posso deixar de aceitar este desafio constante que é afastar-me de tudo aquilo que me conforta para procurar a matriz que me suporta. Sei que jamais ficarei à margem de mim mesma, que cada trilho percorrido foi consciencializado o seu sentido, e vivido com a intensidade de quem adota a naturalidade no extraordinário do que todos os dias lhe acontece. Sentir é a forma mais sublime de se ser. Não temo a mudança. Temo, pelo contrário, o comodismo, o marasmo que a sociedade nos leva a crer como caminhos de felicidade. Considero-os tão anti-vida, tão anti-desenvolvimentais que me levam a acreditar que este mundo civilizado, da era digital, não passa de uma versão analógica do que é ser pessoa em sociedade. Trata-se de uma perspetiva terceiro-mundista sobre a dignidade humana, sobre o que é o respeito pelos outros e o respeito pela natureza que nos acolhe. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

What a crazy ride this year 😃

O fim de um ano dificilmente coincide com o fim de algum tipo de ciclo na nossa vida. Os tempos são diferentes e ao contrário das estações que se definem invariavelmente nos mesmos períodos, os nossos términos e recomeços de ciclos na vida são excessivamente arbitrários e voláteis.
Gostaria que a certeza  do que sucede nesta época fosse um retrato impressionista da nossa vida mas tal não é possível. Por isso, não me esquivo do balanço que a proximidade da finitude deste ano reclama para que o novo ano seja realmente uma benesse de renovação na nossa vida.

Este ano empacotei a casa duas vezes. Foi mais fácil organizar tudo o que tinha de pertences no carro do que organizar o meu coração nestas transições. Mudei de terra mas felizmente cheguei ao local onde tinha pessoas de braços abertos para me receber e, portanto, cheguei ao lugar onde pertenço. Ao longo desta experiência de viver onde me foi permitido fazer enfermagem conheci pessoas que considerei que me iriam iluminar os dias para sempre mas que desvaneceram com a distância. Não culpo nem as pessoas nem a distância porque foi esta também que me trouxe outras pessoas e outras histórias que me acrescentaram tanto. Como sou grata por tudo o que experienciei este ano. Conheci inúmeros lugares e a par desta descoberta geográfica conheci também um pouco mais sobre mim. Descobri que paisagens bonitas me ajudam a atenuar a ansiedade dos momentos mais difíceis. Destes momentos tenho alguns colecionáveis, como todos nós. Demoliram partes de mim que gostava que tivessem permanecido. O que eu desejo portanto para este natal é que esta época seja capaz de nos reabilitar naquilo que em nós é deficitário, incongruente. De tal forma que sejamos seres humanos mais completos, mais próximos, mais reais apesar da virtualidade dos sistemas em que operamos.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Carta de celebração



Hoje, em mais um dia que nasce, aquele que não sonhei, mas que acontece como sucessão de dias possíveis que vão marcando a história da gente. Hoje é dia de celebrar a mudança, o desafio trazendo sempre um novo mundo à vida que é invariavelmente nossa. Apesar das vicissitudes que são inerentes é sempre dia de celebrar as conquistas.
Após seis meses de vivência em Tomar, é difícil crer que a jornada chegou a esta etapa, fazendo-me sentir que houve em tudo isto uma dualidade de velocidades, de sentimentos, de ambições, que me desconstruíram em muitos aspetos que tinha como basilares. As tristezas injustas e as muitas alegrias partilhadas tornaram-me mais pessoa, mais aberta, mais expansiva, mais crédula no propósito que nos é destinado mas quase nunca planeado. Quando havia desesperança…. E houve muita…. Foram sempre os meus que me ergueram, me balizaram quando os limites eram já conflituosos e ténues. Os meus, sempre os meus, aqueles dos laços instituídos e dos laços criados, que sendo distintos de mim, serão sempre meus e eu deles, como partem integrante de um mesmo sistema que é mais complexo do que eu e, por isso mais cativante.



quinta-feira, 21 de abril de 2016

Vens num ímpeto, aproprias-te das minhas divagações, confundes-me as emoções e é saudade, a única coisa que consegues extrair de mim. Não me lês. Não lês o que escrevo. E só o que sei me poderá salvar. Escrever é a forma como recrio aquilo que não consigo esquecer. Escrevo porque me quero lembrar sempre do mais importante, quando o mais importante já só parece querer desvanecer. E depois de linhas e linhas de escrita é, possível, se tentares, ler-me nas entrelinhas, na semântica, no léxico, na gramática. É possível que me leias ainda que não me vejas. A escrita cria tudo, evoca o que ousei viver e fantasia sobre o que aspiro conhecer. Pela escrita sonho, celebro, expando-me, apaziguo tudo o que foi início atribulado e concluo tudo o que era inacabado. Podem tirar-me os motivos, a razão, as experiências, a motivação, o prazer, a alegria, mas não podem apagar os meus pensamentos. Enquanto eles existirem, encontrarei na escrita a minha libertação. Esta forma de comunicar, que não se escolhe viver mas que me chama a cada instante, como forma de registo. Como se dentro de mim, sempre existisse texto (prosa, poesia) que se transcende sempre que a vida se torna um mistério difícil de abarcar.